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Por Que Você Deveria Ter Mais De Um Trabalho

Por que você deveria ter mais de um trabalho

Antes de ser demitida em 2014 depois de trabalhar anos em uma empresa, eu achava que o certo era me dedicar a fazer apenas uma coisa profissionalmente. Eu confesso que mesmo pensando dessa forma, como o espírito empreendedor já me perseguia, me aventurei uma vez em ter um trabalho paralelo, vendendo roupas para minhas colegas de trabalho. Eu não o fazia pensando no dinheiro, necessariamente, porque o que ganhava na época naquele emprego estava bom. Mas eu achava legal ter outras coisas para pensar fora do meu trabalho de 40h semanais.

Certo dia, estava viajando com algumas pessoas da empresa, entre elas o CEO (a quem eu respondia na época), quando uma delas delas falou para ele que eu vendia roupas, como se estivesse valorizando isso. Mas eu percebi que ele não gostou de saber. Fiquei com medo de soar mal e acabei desanimando de prosseguir, porque achei que era errado ter a posição que eu tinha e ainda assim querer apostar em outro negócio.

Parece que nos condicionam a vida toda a pensar que o ideal é ser focado completamente apenas em um só trabalho.

Após uma reestruturação da empresa muita gente foi demitida, eu era uma delas. Eu já não tinha mais aquele negócio paralelo, então, me peguei sem nada da noite para o dia. Felizmente eu não cometi o erro de largar também o mestrado que eu fazia enquanto trabalhava naquela empresa. E olha que na época eu também recebia olhares de reprovação sempre que pedia para faltar uma tarde para assistir aula. Se eu tivesse deixado também o mestrado, teria ficado sem os dois.

Durante seis meses eu fiquei sem emprego. Morando no interior era mais difícil conseguir trabalho e pensei em mudar drasticamente de área por não encontrar onde atuar. Eu desanimei bastante e vi meu dinheiro acabar depois de tanto tempo sem salário, até que finalmente um novo emprego apareceu por indicação de uma amiga. A verdade é que eu não teria sofrido tanto se tivesse cultivado outros planos, mas como eu estava completamente focada apenas na empresa, deixei de cuidar da minha carreira como um todo.

Deixei não apenas de apostar em negócios paralelos como também deixei de ler livros, ir a palestras, fazer cursos, conhecer pessoas novas. Aliás, eu até conhecia nos poucos eventos em que participava pela empresa, mas na época acreditava que se elas não fossem interessantes naquele contexto eu nem devia me importar muito em estabelecer um relacionamento, porque eu sabia que muitas vezes dali não sairia nenhuma parceria. Eu estava errada, porque não me atentei que um contato pode não ser exatamente interessante ou estratégico em determinado momento ou contexto, mas algum tempo depois pode-se estabelecer uma bela parceria com ele quando o cenário mudar. E se você não tiver anotado esses contatos?

Aprendendo a ter sempre um plano B (ou mais de um!)

Depois que voltei a trabalhar levei comigo uma lição. Eu sabia como havia sido difícil ficar tanto tempo desempregada, então tratei de fazer algumas mudanças no meu percurso. Eu entendi que poderia ser uma excelente funcionária em meu horário de trabalho, mas que deveria usar o tempo livre para me mexer conhecendo pessoas, indo a eventos, estudando por conta própria. Eu não podia me fechar pensando que a vida estava ganha porque das 8h às 18h eu tinha um emprego, afinal, eu poderia perdê-lo novamente a qualquer momento.

Coloquei no meu radar alguns eventos importantes de minha área. Aqueles que aconteciam aos finais de semana já estavam confirmados porque eu podia ir sem problemas, e aqueles que aconteciam em horário de trabalho, muitas vezes consegui negociar minha ida com meu chefe explicando para ele os benefícios e como eu poderia trazer informação interessante para dentro da empresa. Algumas vezes ele pagou todas as despesas e em outras eu mesmo. E em todos eles conheci pessoas, anotei contatos, aprendi coisas novas e comecei a abrir minha mente. Eu não ia apenas para cumprir tabela não.

Eu já não era mais uma profissional apenas em horário comercial. Eu sentia minha profissão o tempo todo presente e não via mais barreiras de horários. Como eu fazia o que gostava, as vezes até mesclava trabalho com diversão. Aliás, foram muitas as vezes em que aproveitei umas horinhas na cidade em que estava para uma reunião ou evento para também fazer um passeio, eu conseguia ser feliz não apenas aos finais de semana ou nas férias, mas durante cada momento do meu trabalho.

Além de cuidar mais de meu desenvolvimento profissional, entendi também que precisava ter um plano B. Algo que me deixasse empolgada e feliz e que também gerasse receita. Inicialmente complementaria minha renda, mas poderia acontecer de dar certo e de plano B passar para A. A verdade é que eu estava descobrindo que não precisava me limitar mais a nada. Pouco importava o nome do meu cargo, eu só precisava ser feliz no que fazia e não viver mais com medo de ser demitida.

O espírito empreendedor ainda morava em mim e eu decidi apostar em dar aulas de marketing. Trabalhava naquela empresa durante a semana, mas algumas noites ou finais de semana eram dedicados a dar aulas em universidades ou em meu negócio próprio de cursos, cujas turmas eram anunciadas e recebiam inscrições. Muitas vezes eu abri uma nova turma e reservei uma sala sem saber se daria certo, e deu! E tantas vezes eu cheguei em casa 18h30 para já sair para dar aula às 19h, mas eu estava completamente feliz com tudo isso.

Talvez você enxergue isso com preguiça, do tipo, “ah, mas eu já trabalhei o dia todo, não quero pensar em trabalho ao final do dia”. Eu entendo. Há pessoas com perfis diferentes do meu, que não são empreendedoras. E também há quem esteja satisfeito, conformado ou até acomodado com o que ganha ou faz agora, que pensa que o único caminho para ganhar mais é tentar ser promovido ou que para garantir o emprego sempre é preciso tratar de ser o profissional mais competente e focado possível, em alguns casos até bajular o chefe se for preciso.

Entendo também que tudo depende do momento em que você está. Acredito que em certas fases da vida estamos em tempo de plantar, para só depois colher, então é normal dar um gás maior mesmo, trabalhando mais horas por semana. O que importa é que você esteja feliz. E importa também que você saiba que pode desbloquear seu modo de pensar e perceber que você pode sim fazer mais se quiser. Mas para isso é preciso querer, e mandar a preguiça pra longe.

Por que você deveria ter mais de um trabalho

Perceba que eu uso o termo trabalho. Acredito que estamos cada vez mais caminhando para dias em que será importante ter um trabalho, não um emprego. Isso já vem acontecendo há alguns anos, novos modelos surgiram, horários diferenciados, profissões que nunca imaginamos existir. Entender isso é importante para não passar a vida pensando que ter um emprego é tudo e que se você não tiver um então é um nada, um desempregado. Quando perdi meu emprego eu sentia isso, mas depois aprendi que não importa em que empresa estou, eu sou uma profissional o tempo todo, o conhecimento é meu.

Ter mais de um trabalho é pensar em demandas que você mesmo pode criar, é se dedicar a oferecer ao mercado algo que ainda não foi oferecido, é parar de ter medo de posicionar dessa forma e deixar a vergonha de lado. Trabalhar é sempre digno. Não é, jamais, esperar que as oportunidades caiam do céu (antes, por favor, que alguém venha me dizer que está difícil ter um trabalho só, quem dirá mais). Isso inclui vender brigadeiros, hotdog, bijuterias, oferecer serviços, etc.

Eu hoje não consigo dizer rápido para as pessoas com o que trabalho, acabo resumindo à professora e empreendedora para facilitar, porque de fato eu faço muitas coisas. Com frequência me perguntam como dou conta de tudo, mas a verdade é que eu arranjo tempo. Somo a isso também uma boa dose de organização de agenda, o que inclui saber o que quero para mim, priorizações o tempo todo e bastante automotivação.

Meu plano B deixou de ser B há muito tempo, porque há dois anos as demandas aumentaram tanto que eu pedi demissão para ser, de fato, uma empreendedora. Mas além do plano B eu cultivei outros mais e além de estar envolvida em três startups, dou aulas em cursos de pós-graduação em algumas universidades (algo que não abro mão por amar a experiência e também por ser uma estudante de pós-graduação), dou palestras, cursos e trabalho criando conteúdo para grandes marcas. Também sou autora de livro e estudante de doutorado. Ou seja, é realmente bastante coisa, mas eu estou fazendo exatamente tudo que amo e por isso nada é penoso.

O escritor Kabir Sehgal também seguiu essa linha. Ele tem quatro vocações: estrategista de uma empresa, oficial de Reserva Marinha dos Estados Unidos, autor de livros e produtor de música. Para ele ter múltiplas carreiras o deixa mais feliz e realizado e ajuda a se desempenhar melhor em cada uma das funções. No caso dele o salário de seu emprego corporativo o ajuda a subsidiar sua carreira como produtor, algo que ele faz pela paixão que tem pela música. Tudo isso o fez conhecer mais e mais pessoas e ajudou em sua carreira corporativa. Ele também passou a fazer amigos em diferentes círculos, deixando de ficar limitado a apenas o que conhecia quando tinha apenas um emprego. Por ser autor de livros muitas portas também foram abertas por conta dessa circulação dele em diferentes meios. Outro benefício citado por ele é em relação a descoberta de inovações, porque ele passou a perceber melhor como as ideias interagem entre si, já que agora ele consegue ter uma visão mais ampla do mundo.

O que aconteceu com Sehgal também aconteceu comigo. Passei a transitar por vários caminhos novos, conheci muita gente, aprendi demais com todas elas, dei um salto na minha carreira por conta disso e nunca mais me vejo limitada a um só contexto ou trabalho, acho que ficaria entediada.

Ter mais de um trabalho é muito mais que ter segurança financeira ao saber que se um negócio for mal outro pode ampará-lo. É aproveitar ao máximo a vida trazendo para perto de si as coisas nas quais você bom, as coisas das quais gosta. Não há problema algum em se aventurar em algo no qual você é habilidoso nas horas vagas, por hobby ou, porque não, como negócio. Pense nisso 😉

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